quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Apelo dos Guarani-Kaiowá ecoa na comunidade internacional

Disponível em: www.terra.com.br Em cartas públicas, populações indígenas pedem que seja decretada sua "morte coletiva" em vez de emitida ordem de despejo. O problema de demarcação de terras que existe desde os anos 70 ganhou atenção internacional. Nas últimas semanas, documentos assinados por integrantes do povo indígena Guarani-Kaiowá que vive no Mato Grosso do Sul circularam na imprensa e nas mídias sociais. O mais comovente deles foi divulgado no início do mês, em resposta a uma ordem judicial de reintegração de posse de uma fazenda no município de Iguatemi. A carta assinada por indígenas Guarani-Kaiowá da comunidade de Pyelito Kue pede que a justiça decrete a "morte coletiva" dos indígenas em vez da expulsão de seu território tradicional. Assim como esse grupo, outros também procuram formas de tornar público o longo processo de demarcação de terras. O grupo Guarani-Kaiowá de Passo Piraju, por exemplo, divulgou uma carta na última semana em que detalha a situação do assentamento que existe há 12 anos nas margens do rio Dourados, no Mato Grosso do Sul. "É para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Passo Piraju e para enterrar-nos todos aqui, somente assim, não reivindicaremos os nossos direitos de sobreviver. Esta é a nossa última decisão conjunta diante da decisão da Justiça Federal do Tribunal Regional da 3ª Região (TRF-3) São Paulo-SP", diz trecho da carta. Nesta quinta-feira, a organização de defesa dos direitos indígenas Survival International divulgou um comunicado pedindo "o mapeamento urgente de todas as terras Guarani e que lhes seja permitido permanecer em suas terras antes que mais vidas sejam perdidas". A imprensa chegou a falar de um possível suicídio coletivo, mas nota divulgada na noite desta terça-feira pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) alerta para a interpretação equivocada da posição dos indígenas. Os Kaiowá e Guarani falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nelas, sem jamais abandoná-las, diz o documento, que reflete preocupação da entidade com uma possível onda de alarmismo que pode ser mais prejudicial para os grupos indígenas. Em entrevista à DW, Cleber Buzatto, secretário-executivo do Cimi, diz que o manifesto reflete o desejo daquela população indígena de defender seu direito à terra. "No nosso entendimento, a carta reafirma a decisão coletiva da comunidade de não sair mais uma vez da terra tradicional pela qual eles vêm lutando nas últimas décadas", disse. Segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), até 2010, 43 mil Guarani-Kaiowá haviam sido registrados. Eduardo Backer, advogado da ONG de direitos humanos Justiça Global, disse que o caso dos Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue representa a retomada de território e "é um processo de resistência na tentativa de implementar uma política pública de demarcação que não está sendo feita pelo Estado". Problema histórico "A demarcação de terras é um problema histórico no Brasil, mas especificamente no Mato Grosso do Sul é um problema muito grande e acaba gerando uma série de outros problemas: confinamento, aumento dos índices de suicídio e violência", explica Eduardo Backer, ao lembrar que alguns processos de demarcação já duram 20 ou 30 anos. Um artigo do Guarani-Kaiowá Tonico Benites, mestre e doutorando em Antropologia Social do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado nesta segunda-feira no site da Justiça Global no Brasil, faz um levantamento dos aspectos históricos ligados à demarcação. "Iniciativas de articulação e luta de várias lideranças Guarani e Kaiowá para retornar aos antigos territórios começaram a despontar no final da década de 1970", diz o texto. O advogado Eduardo Backer ressalta o poder dos grupos políticos e do agronegócio, predominantes no Estado, e atribui a demora na resolução dos impasses à ação dessas forças. "A proximidade do poder político e de grupos econômicos interessados na preservação de uma determinada estrutura fundiária que favorece a perpetuação de seu poder econômico e político acaba impossibilitando a demarcação desse território sob o argumento falso de que se perderia a capacidade econômica do Estado", alerta. Violência e morte Para Cleber Buzatto, a demora nos procedimentos de demarcação potencializa situações de violência entre integrantes de um mesmo grupo, suicídio entre jovens e violência por parte de grupos armados comandados, segundo ele, por fazendeiros. "Os Guarani, cansados de aguardar pela ação do Estado, promovem eles próprios ações que chamam de retomada como uma estratégia de tentar fazer com que o Estado se movimente de uma forma um pouco mais ágil", afirmou Buzatto. Informações repassadas à DW pelo Cimi revelam uma situação tensa no Estado, que já registra centenas de processos de conflitos entre indígenas e latifundiários. Em todo o País, mais da metade dos registros de morte violenta de indígenas ocorre entre o grupo Guarani-Kaiowá. O Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas 2011, do Cimi, registra 503 assassinatos de indígenas entre 2003 e 2011 no país. Desses, 279 são de Guarani-Kaiowá. Dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, dão conta de 555 casos de suicídio desse grupo entre 2000 e 2011. Outro tipo de violência, dessa vez contra lideranças indígenas, também causa preocupação, segundo Eduardo Backer. "Já há vários mortos, principalmente pela atuação de pistoleiros e fazendeiros", disse, ao lembrar que muitas lideranças estão hoje em programas de proteção da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Preconceito e conservadorismo Apesar de ser uma garantia constitucional, a preservação de território indígena ainda não recebe apoio amplo da sociedade brasileira. "É importante que a comunidade tenha ciência desses fatos e apoie os Guarani-Kaiowá no sentido de sensibilizar o governo brasileiro para agilizar os procedimentos de demarcação das terras", ressalta Cleber Buzatto. Para Eduardo Backer, além das forças políticas e econômicas regionais, há o que classificou de conservadorismo e preconceito de parcela da sociedade brasileira que, segundo sua visão, defende um processo de aculturação que "impede que esses povos vivam de acordo com seus modos de vida tradicionais".

O que faremos?

Nas últimas semanas, além do futebol de sempre, dois assuntos ocuparam as manchetes: o julgamento do chamado "mensalão" e, na campanha eleitoral em São Paulo, o programa de combate à homofobia, grotescamente apelidado de "Kit Gay". Quase nenhuma importância se deu a uma espécie de testamento de uma tribo indígena. Tribo com 43 mil sobreviventes. A Justiça Federal decretou a expulsão de 170 índios da terra em que vivem atualmente. Isso no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, à margem do Rio Hovy. Isso diante de silêncio quase absoluto da chamada grande mídia. (Eliane Brum trata longamente do assunto no site da revista Época nesta segunda-feira, 22). Há duas semanas, numa dramática carta-testamento, os Kaiowá-Guarani informaram: - Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje (…) Comemos uma vez por dia. Em sua carta-testamento os Kaiowá-Guarani rogam: - Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. Diante dessa história dantesca, a vice-procuradora Geral da República, Déborah Duprat, disse: "A reserva de Dourados é (hoje) talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo". Em setembro de 1999, estive por uma semana na reserva Kaiowá-Guarani, em Dourados. Estive porque ali já se desenrolava a tragédia. Tragédia diante de um silêncio quase absoluto. Tragédia que se ampliou, assim como o silêncio. Entre 1986 e setembro de 1999, 308 índios haviam se suicidado. Em sua maioria, índios com idade variando dos 12 aos 24 anos. Suicídios quase sempre por enforcamento, ou por ingestão de veneno. Suicídios por viverem confinados, abrutalhados em reservas cada vez menores, cercados por pistoleiros ou fazendeiros que agiam, e agem, como se pistoleiros fossem. Suicídios porque viver como mendigo ou prostituta é quase o caminho único para quem é expelido pela vida miserável nas reservas. Italianos e um brasileiro fizeram um filme-denúncia sobre a tragédia. No Brasil, silêncio quase absoluto; porque Dourados, Mato Grosso, índios… isso está muito longe. Isso não dá ibope, não dá manchete. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 habitantes para cada 100 mil. No Iraque, esse índice é de 93 pessoas para cada 100 mil. Desde fins de 1999, quando, pela revista Carta Capital, estive em Dourados com o fotógrafo Luciano Andrade, outros 555 jovens Kaiowá-Guarani se suicidaram no Mato Grosso do Sul, descreve Eliane Brum. Sob aterrador e quase absoluto silêncio. Silêncio dos governos e da chamada mídia. Um silêncio cúmplice dessa tragédia. Fonte: http://migre.me/biAJj — com Necton Boarding Company.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Salvemos os índios Guarani-Kaiowá

Boa tarde amigos, a imagem é realmente pra chocar, mas acima de tudo para COMPARTILHAR e ASSINAR a petição! Resolvi escrever um pouco para fazer um apelo a quem estiver vendo essa mensagem. Nossos índios estão sendo massacrados enquanto a mídia tradicional está escondendo essa verdade das pessoas, ontem vi uma pagina com imagens realmente chocantes de vários corpos de nossos irmãos mortos por lutar por algo que é seu de direito. Estamos trocando vidas humanas por terra e eletricidade a fim de favorecer um pequeno grupo de empresários que tem nossa presidente incompetente e omissa ,Dilma Rousseff, que não só finge que nada está acontecendo como dá o aval para que essa mortandade siga acontecendo. Se você fica indignado com fotos de cães mortos, esse da imagem é uma pessoa, como eu e você, que morreu defendendo o que é seu de direito, hoje estranhamente as pessoas estão abobalhadas de tal maneira que se mobilizam por TUDO, menos para defender seus irmãos de sangue, os donos da terra, é nossa cultura que está sendo dizimada e encoberta pelos poderosos, nossa arma é a mídia independente, que é formada por eu, você e qualquer um disposto a disseminar a informação que está sendo ocultada, Não sou salvador do mundo, sou apenas uma pessoa que vai usar o recurso que tiver pra que coisas como essa não se tornem banais, por isso peço do fundo do meu coração que vocês assinem essa petição no link abaixo e vamos juntos usar a internet e todos os meios possíveis para salvar nossa história que não pode ser comprada! Vidas são vidas e devem ser respeitadas, do cachorro do pet shop até o índio no meio do mato. http://www.avaaz.org/po/petition/Salvemos_os_indios_GuaraniKaiowa_URGENTE/ Por: Angelo Luiz Correa Freixo

domingo, 30 de setembro de 2012

Hebe Camargo morre aos 83 anos...

A apresentadora Hebe Camargo morreu na madrugada deste sábado (29), aos 83 anos, após sofrer uma parada cardíaca em sua casa, no Morumbi, em São Paulo. Hebe lutava contra um câncer no peritônio, diagnosticado em janeiro 2010. A eterna "gracinha" do Brasil, Hebe Camargo... Deus acolha sua alma! Obrigado pela alegria contagiante que trouxe durante esses longos anos a cada um de nós brasileiros! Descanse em paz!!!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Seminários - Enfermagem

Diletos acadêmicos do curso de enfermagem, conforme combinado em sala de aula seguem abaixo os temas dos seminários com as respectivas datas de apresentação dos mesmos. O representante de turma deverá fazer a devida divisão dos temas tomando cuidado para que não fiquem alguns grupos com muitas pessoas e outros com poucas. É necessário observar bem pois todos os temas abaixo deverão ser apresentados conforme a divisão e datas estabelecidas. Se acharem conveniente, olhem antes da divisão o material que está disponível na biblioteca para ver o tamanho de cada tema, desse modo não ficaram grupos pequenos demais com temas grandes e vice-versa. (Bibliografia abaixo) Importante: A apresentação dos seminários será avaliada de maneira individual, portanto cada aluno é responsável pelo estudo e domínio do tema. Não terá possibilidade de 2ª chamada para o seminário, por isso, observe bem a data pois o aluno que em qualquer hipótese faltar a apresentação terá nota igual a zero (0,0). Ética profissional Grupo 1- Ética profissional; Código de ética; tomada de decisões Data de apresentação: 17/05/2012 Responsabilidade ética e legal do profissional da enfermagem Grupo 2 - Fundamentos básicos da responsabilidade; Responsabilidade Civil Data de apresentação: 17/05/2012 Grupo 3- Responsabilidade penal; Responsabilidade ético-profissional Data de apresentação: 17/05/2012 Distinção entre imperícia, negligência e imprudência no exercício da enfermagem Grupo 4 Data de apresentação: 24/05/2012 Bioética: gênese, conceituação e enfoques Grupo 5 - Gênese da bioética Data de apresentação: 24/05/2012 Grupo 6- Abrangência e trajetória da bioética; Conceituando bioética; Enfoques da bioética Data de apresentação: 24/05/2012 Grupo 7- Enfoque principialista: Ênfase nos princípios e nos atos Data de apresentação: 31/05/2012 Grupo 8- Enfoque das virtudes: Ênfase no caráter dos agentes; Enfoque do cuidado: Ênfase nas relações Data de apresentação: 31/05/2012 Livro: Ética e Bioética Organizadores: Taka Oguisso e Elma Zoboli Editora Manole Prof. Rafael Bueno da Silva

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ter e Ser

A questão entre ter ou ser desencadeou discussões interessantes, especialmente da modernidade em diante. Antes da revolução científica dos modernos, era muito claro, ao menos filosoficamente, que ser importava muito mais do que ter, visto que a vida humana na Terra era considerada uma mera passagem sem importância, pois o que realmente importava era o além mundo, quer seja o Hiperurânio de Platão, quer seja o Paraíso dos cristãos medievais. Mas, na renascença, o problema começa a surgir, pois de transcendente a vida do homem, e tudo aquilo que lhe implica, passa a ter caráter imanente. O avanço das ciências naturais e a decadência da Igreja contribuem para o nascimento dessa nova visão de mundo. Mas não só isso. Para Gerd Bornheim, o que ele denomina de “projeto burguês” teve também a sua contribuição para esse fato, ao dar ênfase a certos aspectos que culminaram com o consumismo capitalista que vemos hoje. Para Bornheim o projeto burguês se caracteriza em 7 aspectos principais: A autonomia do sujeito; A valorização do trabalho; Defesa da propriedade privada; A formação do capitalismo, e o dinheiro promovido à fim em si mesmo; O conhecimento humano como uma forma de poder; A liberdade, ficando o homem como senhor de si mesmo; O contrato social, e a norma transformando-se em convenção social. Por essas características destacadas, podemos notar que todas elas servem para fundamentar e suportar a ascensão econômica burguesa, que precisava de homens não tão ligados com fatores espirituais, desprezadores do corpo e da matéria, para poderem vender seus produtos e fazer o capitalismo progredir. Nas palavras do autor: “Percebe-se que tudo é feito para alicerçar de maneira mais sólida possível a autonomia do homem burguês”. É aí, então, que soma-se ao cenário o ateísmo e o individualismo. A questão já toma corpo com o nominalismo, na Idade Média, especialmente com Guilherme de Ockham (1280/90-1349), onde “a perspectiva começa a inverter-se e passa ser possível afirmar que a existência precede a essência, pois o que conta agora é realmente o indivíduo concreto”. O indivíduo toma o lugar do divino, o imanente toma o lugar do transcendente. E temos então aquilo que chamamos de materialismo, a doutrina que acredita apenas na existência do que é físico, material, descartando qualquer coisa que tenha referências metafísicas. É claro que, na dicotomia ter e ser, estamos falando de um materialismo específico que, querendo ou não, nasce ou acentua-se à partir do projeto burguês citado por Bornheim. É o materialismo econômico, estudado por Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920), entre outros, onde a ênfase é dada às posses materiais, e não à qualquer outra coisa. O materialismo econômico vai encontrar grande campo para semear-se na América do Norte, especialmente após William James (1842-1910) teorizar a corrente pragmática, cujas maiores influências abateu-se exatamente sobre a economia. E com o desenvolvimento do próprio capitalismo selvagem, do neo-liberalismo e das ciências naturais, colocando o homem no centro de tudo, a contemporaneidade passa a ser terreno cada vez mais fértil para o enraizamento do materialismo econômico. Com essa postura econômica, consequentemente outro fenômeno acontece: "O pós-modernismo faz a opção pela contingência. E, com ela, opta pelo fragmentado, efêmero, volátil, fugaz, pelo acidental e pelo descentrado, pelo presente sem passado e sem futuro, pelos micropoderes, microdesejos, microtextos, pelos signos sem significação que se torna, assim, a definição e o modo da liberdade." (Marilena Chauí) Assim, vivemos numa sociedade materialista economicamente (com os outros tipos materialismos estando ligados, necessariamente, à este), onde tudo virou um produto descartável, onde o que vende mais hoje, amanhã já não tem nenhum valor; onde o ser deixa de ser importante, pois denota um centro, um norte, um ponto fixo, que não mais vigora em nosso pensamento. (Disponível em: www.filosofiadocaos.blogspot.com)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ter ou Ser? (Erich Fromm)

No sentido e com o objetivo em mente de abordar e ampliar temas humanísticos de caráter filosófico e holístico vou fazer um resumo de uma obra sobre dois conceitos tão fundamentais que estamos em permanente imersão com eles diariamente. Tais conceitos expressam-se tão simplesmente por TER e SER . O principal objetivo deste resumo é introduzir a análise de dois modos básicos de estar no mundo : o modo TER e o modo SER. "Somos uma sociedade de gente visivelmente infeliz: sós, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes – gente que se alegra quando matou o tempo que tão desesperadamente tentamos poupar. A nossa experiência social é a maior alguma vez feita no sentido de resolver a questão de se o prazer poderá ou não ser uma resposta satisfatória para o problema da existência humana. Pela primeira vez na História, a satisfação do prazer não constitui apenas o privilégio de uma minoria. Tornou-se acessível a mais de metade da população. Ser egoísta não se relaciona apenas com o meu comportamento mas com o meu caráter. Ou seja : que quero tudo para mim; que me dá prazer possuir e não partilhar; que devo tornar-me ávido, porque, se o meu objetivo é ter, eu sou tanto mais quanto mais tiver; que devo sentir todos os outros como meus adversários: os meus clientes a quem devo iludir, os meus concorrentes a quem devo destruir, os meus trabalhadores que pretendo explorar. Nunca poderei estar satisfeito, porque não existe fim para os meus desejos; devo sentir inveja daqueles que têm mais e receio daqueles que têm menos. Mas tenho de reprimir todos estes sentimentos para poder revelar-me (aos outros e a mim próprio) como o ser humano sorridente, racional, sincero e amável que toda a gente pretende ser. "A paixão pelo ter conduzirá a uma interminável luta de classes. Na sociedade medieval, como em muitas outras altamente desenvolvidas e também nas sociedades primitivas, o comportamento econômico era determinado pelos princípios éticos. O capitalismo do século XVIII foi sujeito a uma mudança radical: o comportamento econômico foi separado dos valores éticos e humanos. Com efeito, a máquina econômica devia ser uma entidade autônoma, independente das necessidades e desejos do Homem. Foi um sistema que decorreu naturalmente e de acordo com as suas próprias leis. O sofrimento dos trabalhadores, assim como a destruição de um número sempre crescente de pequenas empresas em nome do crescimento de corporações cada vez maiores, foi uma necessidade que, ainda que pudesse ser lamentada, havia que aceitar como o resultado de uma lei natural. " O desenvolvimento deste sistema econômico não era já determinado pela pergunta: O que é bom para o Homem? Mas por uma outra: O que é bom para o crescimento do sistema? Não é de considerar menos importante um outro fator: a relação das pessoas com a Natureza tornou-se profundamente hostil. Sendo, como somos, «fenômenos da Natureza», existindo dentro dela pelas próprias condições do nosso ser e transcendendo-a pela dádiva da razão, tentamos resolver o problema existencial desistindo da visão messiânica da harmonia entre a Natureza e a Humanidade, optando por conquistá-la, transformá-la, de acordo com os nossos interesses, até que essa conquista se tornou cada vez mais semelhante à destruição. O nosso espírito de conquista e a nossa hostilidade cegaram-nos para os fatos de que as fontes naturais têm os seus limites e podem eventualmente esgotar-se, e de que a Natureza pode voltar-se contra a violação humana. A Sociedade Industrial despreza a Natureza. Uma nova sociedade só é possível se ao longo do processo do seu desenvolvimento surgir um novo ser humano, ou, em termos mais simples, se uma mudança fundamental ocorrer na estrutura do caráter do Homem contemporâneo. Pela primeira vez na história a sobrevivência física da raça humana depende de uma alteração profunda do coração do Homem. Todavia, essa mudança terá de acompanhar a dimensão das alterações econômicas e sociais ocorridas, capazes de dar ao coração humano uma hipótese de mudar e coragem para o conseguir." Numa cultura em que o objetivo supremo é o TER e ter cada vez mais até parece uma função normal da vida que para viver necessitemos de ter coisas. "TER e SER são dois modos fundamentais de experiência , a energia específica de cada um determina as diferenças entre o caráter dos indivíduos e os vários tipos de caráter social. A grande diferença entre ser e ter é a que se estabelece entre uma sociedade centrada sobre as pessoas e uma sociedade centrada sobre as coisas. Imaginemos um indivíduo que procura a ajuda de um psicanalista e que começa assim o seu discurso: « Doutor, tenho um problema; tenho insônias e apesar de ter uma boa casa, uns filhos adoráveis e um bom casamento, tenho muitas preocupações.» O estilo do discurso mais recente indica o predominante grau de alienação. Ao afirmar «Eu tenho um problema» em vez de « Estou preocupado» a experiência subjetiva é eliminada: o eu ligado à experiência passa a ligar-se à posse. Transformei o meu sentimento em qualquer coisa que possuo: o problema. Mas «problema» é um termo abstrato para todos os tipos de dificuldades. Eu não posso ter um problema porque ele não é uma coisa que eu possua; todavia, ele pode possuir-me. Ou seja, eu transformei-me num «problema» e estou agora à mercê daquilo que criei. Este tipo de linguagem denuncia uma alienação inconsciente." " Um exemplo simples do modo de existência ser ou estar é referir uma outra manifestação do estar – a da incorporação. Incorporar uma coisa, por exemplo, comendo-a ou bebendo-a, é uma forma arcaica de possuir. Até certo ponto, durante a seu desenvolvimento, todas as crianças têm tendência a levar à boca aquilo que desejam. Esta é a forma infantil de tomar posse, quando o desenvolvimento físico não lhes permite ter outras formas de controlar os seus haveres. Consumir é uma forma de ter e talvez a mais importante de todas na atual sociedade industrial da abundância. Consumir tem características ambíguas: liberta a ansiedade, dado que aquilo que se tem não nos pode ser retirado; mas ao mesmo tempo exige que se consuma cada vez mais, porque tudo o que se consumiu depressa perde o seu caráter satisfatório. Os modernos consumidores podem identificar-se pela seguinte fórmula: Eu sou igual ao que tenho e ao que consumo." " O principal motivo pelo qual raramente vemos sinais do modo ser de existência, resulta do fato de vivermos numa sociedade voltada para a aquisição de bens e obtenção de lucros. Os estudantes que se incluem no modo ter de existência, ouvem uma lição, escutando as palavras e entendendo a sua estrutura lógica e o seu significado. Mas o conteúdo não passou a fazer parte do seu sistema individual de pensamento, enriquecendo-o e ampliando-o. A memória confiada ao papel é outra forma de alienar a lembrança. O escrever tudo aquilo de que queremos lembrar-nos dá-nos a certeza de ter essa informação e não tentamos gravá-la no cérebro. Estamos seguros da nossa posse; só que, quando acontece perdermos as nossas notas, perdemos igualmente a nossa memória de informações. A capacidade de lembrar abandonou-nos, quando o nosso banco de memórias se tornou uma parte exterior a nós, sob a forma de apontamentos. Se considerarmos a multidão de informações que na sociedade contemporânea é necessário reter, teremos de considerar que uma certa dose de apontamentos e referências depositadas em livros é inevitável. Curiosamente alguns indivíduos analfabetos, ou que escrevem pouco, têm memórias, de longe, superiores, aos habitantes instruídos dos países industrializados. Entre outros fatos, isto sugere-nos que a instrução não constitui de forma alguma a tão alardeada benção, principalmente quando é utilizada na leitura de matérias que empobrecem a capacidade de experimentar e de imaginar." "Durante um diálogo enquanto as pessoas do ter confiam no que possuem , as do ser confiam no que são , de que estão vivas e de que algo de novo irá nascer, se tiverem coragem de se soltar e responder. Tornam-se totalmente vivos durante a conversa, porque não são sufocados pela preocupação ansiosa daquilo que têm. A sua vivacidade é contagiosa e muitas vezes ajuda a outra pessoa a ultrapassar o seu egocentrismo. O que é verdade para o diálogo é igualmente verdade para a leitura, que é – ou deveria ser – uma conversa entre o autor e o leitor. É claro que na leitura (do mesmo modo que na conversa) é importante quem estamos a ler (ou com quem estamos a falar). Outra diferença entre os modos de ter e ser encontra-se na forma como é exercida a autoridade. Antes de entendermos a autoridade nos dois modos, há que reconhecer que «autoridade» é um termo com dois sentidos totalmente diferentes: tanto pode ser «racional», como «irracional». A autoridade «racional» baseia-se na competência e ajuda a pessoa , que com ela aprende, a crescer. A autoridade «irracional» assenta no poder e serve para explorar o indivíduo que a ela está sujeito. A autoridade segundo o modo ser, assenta, não apenas na competência que o indivíduo possui para executar determinadas tarefas, mas em igual medida, na própria essência de uma personalidade que atingiu um elevado grau de evolução e integração. Tais seres irradiam autoridade e não necessitam de dar ordens, ameaçar ou subornar. São indivíduos altamente desenvolvidos que demonstram, através do que são- e não pelo que dizem ou fazem – tudo o que os seres humanos podem vir a ser." Ter conhecimento e saber "A diferença entre os modos de ter e ser na área do conhecimento é formulada em duas expressões: «eu tenho conhecimento» e « eu sei».Ter conhecimento é tomar posse e manter o conhecimento disponível (informação); Saber é fundamental e serve apenas como um meio durante o processo de pensamento criativo. O Amor O amor tem igualmente dois significados, que dependem de nos referirmos ao modo ter ou ser. Pode ter-se amor? Para que tal fosse possível, ele teria de ser uma coisa, uma substância passível de ser possuída. A verdade é que não existe essa coisa chamada «amor». «Amor» é uma abstração, talvez uma deusa ou um ser de natureza diferente, embora nunca ninguém o tenha visto. Na verdade existe apenas o ato de amor. Amar é uma atividade criadora. Supõe preocupação com o outro, conhecimento, resposta, afirmação, gosto pela pessoa, a árvore, o quadro ou a idéia que se ama. Implica trazer à vida, aumentar a alegria, dele ou dela. É um processo de auto-renovação e auto-crescimento." " As normas pelas quais a sociedade se rege, moldam também os traços de caráter social dos seus membros. Numa sociedade industrial eles são: o desejo de adquirir propriedades, de as manter e de as aumentar, ou seja, de extrair delas o lucro, e os proprietários são admirados e invejados como seres superiores. Mas a grande maioria das pessoas não tem qualquer propriedade no sentido de capital e de bens capitais e uma questão intrigante se coloca: como podem tais pessoas satisfazer ou mesmo enfrentar a sua ânsia de aquisição e posse de propriedade, ou como se podem sentir possuidores quando não têm absolutamente nada que lhes permita, neste contexto, referenciarem-se. É claro que a resposta óbvia é que mesmo os indivíduos pobres em propriedades possuem qualquer coisa, e prendem-se às suas pequenas posses do mesmo modo que os donos do capital se prendem às suas. E tal como eles, os pobres vivem obcecados pelo desejo de preservar o que têm e de o ver aumentado, ainda que uma quantia ínfima (poupando um escudo aqui , um escudo ali). Talvez a maior satisfação não resida tanto na posse de bens materiais quanto na de seres vivos. Numa sociedade patriarcal, até o mais pobre dos homens da classe mais miserável pode ser proprietário, no seu relacionamento com a mulher, os filhos, os animais, em relação aos quais se sente dono absoluto. Quer o objeto que se adquire seja um automóvel, um vestido ou um acessório, após algum tempo de uso, as pessoas cansam-se dele e é mais atraente desfazer-se do «antigo» e comprar o «último modelo». Aquisição posse e uso transitório deitar fora (ou, se possível, troca vantajosa por um modelo melhor) nova aquisição, constituem o ciclo vicioso da compra consumista, e o lema de hoje, poderia ser:«O novo é belo». Talvez o exemplo mais gritante do fenômeno do consumismo seja o automóvel privado. O nosso tempo merece ser apelidado de «Idade do Automóvel», pois toda a sua economia tem sido construída à volta da sua produção, e toda a nossa vida é, em grande parte, determinada pela subida e descida do mercado de consumo automóvel. O sentimento de propriedade manifesta-se, igualmente, noutros tipos de relação, por exemplo, para os médicos, dentistas, advogados, patrões, trabalhadores. As pessoas no seu discurso referem-se a eles como «o meu médico», «o meu dentista», «os meus empregados», etc., mas para além da sua atitude de posse em relação aos outros seres humanos, experimentam, igualmente, esta atitude com um número infindável de objetos. Vejamos, por exemplo, a saúde e a doença. Cada um fala da sua saúde com um absoluto sentimento de propriedade, referindo-se às suas doenças, às suas operações, aos seus tratamentos, aos seus medicamentos, às suas dietas. Consideram claramente a saúde e a doença como propriedades. Ainda que me pareça ter tudo, eu não tenho – na realidade – nada, dado que as minhas posses e o meu controlo sobre um objeto não passam de um momento transitório durante o processo de viver. Em resumo, a frequência e intensidade do desejo de partilhar, dar e sacrificar não devem surpreender-nos se levarmos em conta as condições de existência da espécie humana. O que é surpreendente é o fato de esta necessidade ter podido ser reprimida ao ponto de fazer dos atos de egoísmo a regra, nas sociedades industriais e de fatos de solidariedade a exceção. Mas, paradoxalmente, este mesmo fenômeno é causado pela necessidade de união. Uma sociedade cujos princípios são a aquisição, o lucro e a propriedade, produz um caráter social orientado para o ter e, uma vez estabelecido o padrão dominante, ninguém quer um marginal ou um proscrito; a fim de evitar este risco, todos se adaptam à maioria, que tem apenas em comum o antagonismo mútuo. Como consequência desta atitude preponderante de egoísmo, os dirigentes da nossa sociedade acreditam que as pessoas podem ser motivadas apenas pelo incentivo de vantagens materiais, ou seja, através de recompensas e que não reagirão aos apelos da solidariedade e do sacrifício. Portanto, com exceções dos tempos de guerra, estes apelos raramente são feitos, e as hipóteses de observar os possíveis resultados perdem-se por completo. Apenas uma estrutura sócio-econômica e um quadro da natureza humana radicalmente diferentes poderiam mostrar outra maneira de influenciar positivamente as pessoas. (Disponível em: www.dhnet.org.br Acesso em 26/02/2012)